Participação de brasileiros no golpe do Chile deve ser investigada .João Paulo Charleaux

Qui, 31 de Maio de 2012 

Participação de brasileiros no golpe do Chile deve ser investigada

Escrito por  Da Redação

 

 

Fontes brasileiras e chilenas indicam que o papel do Brasil em 11 de setembro de 1973 foi crucial. A participação de civis e militares brasileiros no golpe militar contra o presidente chileno Salvador Allende, em setembro de 1973, pode ser uma das revelações inesperadas da recém instaurada Comissão da Verdade no Brasil. Conexão brasileira é clara, diz historiador Moniz Bandeira

Por João Paulo Charleaux

O envio de 100 milhões de dólares por empresários brasileiros para financiar o golpe no Chile, as reuniões de militares golpistas na Embaixada do Brasil em Santiago e a “exportação” do know how em técnicas de sequestro e torturas cometidas durante a chamada “Operação Condor” fazem parte de uma lista mencionada por ex-membros do governo Allende, historiadores e escritores do Chile e do Brasil ouvidos pelo Opera Mundi num conjunto de entrevistas inéditas realizadas entre outubro de 2011 e maio de 2012.

“A Comissão da Verdade do Brasil pode ter um impacto não somente no Chile, mas em todos os países do Cone Sul que participaram do Plano Condor”, disse a jornalista e escritora chilena Mónica Gonzalez, autora do livro La Conjura – Os Mil e Um Dias do Golpe, obra que fala não somente do golpe liderado pelo general Augusto Pinochet, mas também dos efeitos nefastos da ditadura que durou 17 anos e deixou 2.279 mortos e 1.102 desaparecidos no Chile, de acordo com a Comissão de Verdade e Reconciliação local.

“O Brasil, de acordo com todas as investigações sérias que foram feitas até agora, desempenhou um papel central na gestação dos golpes militares na região, como uma via de financiamento externo para a desestabilização e, em seguida, para o treinamento dos serviços secretos dos países do Plano Condor, em solo brasileiro”, acrescentou Mónica, em referência à articulação que envolveu militares brasileiro, argentinos e chilenos na perseguição a militantes de esquerda no Cone Sul durante os anos 1970.

“Empresários brasileiros arrecadaram fundos para financiar os golpistas no Chile. Aliás, o único brasileiro presente na noite em que a Junta Militar chilena prestou juramento, no dia 11 de setembro (dia do golpe), foi o então embaixador do Brasil no Chile (Antonio Castro do Alcântara Canto), em cuja residência foram feitas as reuniões-chave para que Pinochet se juntasse ao golpe”, disse a jornalista e escritora.

A tese é corroborada por atores relevantes da história, como um dos assessores diretos de Allende, o atual diretor do PNUD (Programa da ONU para o Desenvolvimento), Heraldo Muñoz: “O golpe no Chile foi planejado em reuniões secretas em diversos lugares, incluindo a Embaixada do Brasil em Santiago. O representante da ditadura brasileira da época, o embaixador Antonio Castro do Alcântara Canto, foi um ativo promotor do golpe e um protagonista do apoio à ditadura chilena.”

Ele também é direto e claro ao falar da participação de civis brasileiros nas articulações para derrubar Allende, então o primeiro presidente socialista eleito democraticamente no mundo. “Empresários de São Paulo financiaram o grupo de ultra-direita Patria y Libertad que perpetrou atividades terroristas para desestabilizar o governo Allende. Torturadores brasileiros vieram ao Chile após o golpe para ensinar técnicas de tortura, interrogar e levar de volta ao Brasil ativistas brasileiros exilados no Chile”, disse de Washington, por email, Munõz ao Opera Mundi, numa entrevista ainda inédita feita em setembro do ano passado.

Muñoz, que em agosto de 2010 lançou no Brasil um livro sobre o assunto, A Sombra do Ditador – Memórias Políticas do Chile sob Pinochet (Zahar, 394 páginas, R$ 59), é ainda mais preciso ao falar da participação do Itamaraty no caso: “O embaixador Câmara Neto, do Brasil, apareceu junto aos militares chilenos durante seu primeiro ato público, entregou o primero reconhecimento diplomático à Junta militar chilena e participou ativamente na procura de empréstimos financeiros do Brasil ao Chile, incluindo um crédito de emergência de 100 milhões de dólares. A conexão brasileira no nosso 11 de setembro é muito clara”, assegura Muñoz.

Historiadores brasileiros como Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, autor do livro Fórmula para o Caos – uma das mais importantes obras sobre a ação de atores estrangeiros no golpe no Chile, especialmente sobre o papel da Casa Branca e do Departamento de Estado norte-mericano na queda de Allende – também é enfático ao falar sobre o papel do Brasil. O Opera Mundi trocou 11 mensagens de email com Moniz Bandeira entre outubro e novembro de 2010, mas o historiador desautorizou a publicação do conteúdo das mensagens.

Nelas, o professor, que hoje vive na Alemanha e é conhecido como um autor cada vez mais recluso, insiste que todas as informações relevantes sobre o papel do Brasil nas ditaduras da região já estão publicadas em livro, mas não reluta em comentar aspectos particulares. Ele considera que os brasileiros estavam prontos para assumir um papel militar ativo caso o golpe tivesse provocado uma divisão e uma guerra civil no Chile, em setembro de 1973.

Longe de ser um radical apaixonado, Moniz foi ao longo de muitos anos um dos intelectuais estudados pelos militares na Escola Superior de Guerra. Seus livros fazem parte de bibliografia do curso e suas palestras, concorridas entre oficiais. Tudo isso, apesar de Moniz Bandeira ter sido preso pela Marinha do Brasil durante a ditadura.

Conexão no Itamaraty

O apoio de Câmara Neto às articulações do golpe chileno estão longe de ser um fato isolado, de simpatia pessoal por Pinochet. A estratégia de apoiar a Junta Militar chilena estava ligada diretamente ao chamado Ciex (Centro de Informações do Exterior), uma espécie de ninho de arapongas criado dentro do Itamaraty para perseguir militantes comunistas no Cone Sul entre 1966 e 1985. A concepção e o funcionamento do grupo estava a cargo do embaixador brasileiro Manoel Pio Corrêa, formado na Escola Superior de Guerra.

Ao tentar conversar com Pio Corrêa no ano passado, Opera Mundi foi advertido sobre a condição sensível de saúde do embaixador, que já estaria, de acordo com a esposa, surdo, com 93 anos. O fato revela o quanto deve ser mais difícil a cada dia para a Comissão da Verdade brasileira recolher relatos pessoais de testemunhas-chave sobre os bastidores da ditadura, muitos deles com mais de 80 anos.

Entre os crimes cometidos por Pio Corrêa – alguns deles admitidos pelo embaixador numa auto biografia e numa entrevista publicada pelo jornalista Cláudio Dantas Sequeira, no jornal Correio Braziliense – está a perseguição aos que ele chamava de “pederastas, bêbados e vagabundos” que trabalhavam como diplomatas no Itamaraty. Pio Corrêa era conhecido como “troglodita reacionário” pelos exilados brasileiros.

As conexões entre ditaduras sul-americanas não estiveram restritas apenas à região. A chilena Mónica cita por exemplo o trabalho da premiada jornalista francesa Marie-Monique Robin, que investigou a ação de grupos de extermínios franceses no Chile e na Argentina no documentário Esquadrão da Morte: A Escola Francesa.

Mónica cita o trabalho de Marie-Monique para lembrar que “o general francês Paul Aussaresses, principal torturador da guerra de independência da Argélia (1954-1962), instalou no Brasil nos anos 1970 uma escola para treinamento de torturadores do Brasil, Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai, com recursos financeiros da CIA (Agência de Inteligência dos EUA). Por esse lugar, desfilaram os principais assassinos de nossos países. Sobre os dinheiros que financiaram esses golpes e sobre a repressão na região não se falou quase nada. O Brasil tem as chaves para abrir as gavetas mais fundas.”

Última modificação em Sex, 01 de Junho de 2012 

 

 

Ato contra Golpe Militar de 1964 reúne centenas na Cinelândia

Ato contra Golpe Militar de 1964 reúne centenas na Cinelândia.

 

Seg, 01 de Abril de 2013 23:48

Ato contra Golpe Militar de 1964 reúne centenas na Cinelândia

Centenas de manifestantes reunidos por Verdade, Memória e Justiça

Esta segunda-feira, 1 de abril de 2013, marca o quadragésimo nono aniversário da implantação golpista da ditadura militar brasileira. Em todo país, a sociedade foi às ruas para protestar contra esse atentado à democracia e à soberania do nosso povo, clamando por Verdade, Memória e Justiça e reafirmando o desejo de viver em uma pátria livre. 

No Rio de Janeiro, não foi diferente. Nesta tarde, centenas de manifestantes de diversas entidades, organizações, partidos políticos e da sociedade civil, estiveram reunidos na histórica praça da Cinelândia, palco emblemático das lutas sociais do povo brasileiro. O ato aconteceu bem em frente ao Clube Militar, onde ano passado os militares realizaram uma comemoração da fatídica data, atentando contra a memória do povo brasileiro.

Nesse ano, os militares não protagonizaram esse ato desrespeitoso e a manifestação foi pacífica, construtiva e democrática. Representantes de todas as forças que ali estavam tiveram oportunidade de fazer uso da palavra e de ampliar essa importante unidade que busca o desencobrimento de todas as atrocidades da ditadura militar e a punição dos agentes e colaboradores do regime fascista brasileiro.

O ato saudou a democracia e prestou apoio à Comissão Nacional da Verdade, que investiga os crimes da ditadura e que frequentemente tem sido vítima de ataques de militares e de organismos coniventes com às barbáries ditatoriais. Os manifestantes tremularam suas bandeiras, levantaram suas palavras de ordem e deixaram claro o anseio do povo brasileiro pela Verdade do período tenebroso que assolou o país por 21 anos.

A presidenta da União da Juventude Socialista no Rio de Janeiro (UJS-RJ), Flávia Calé, falou : “Essa atividade busca registrar, consolidar na memória, na história, a nossa versão sobre o que significou a ditadura brasileira; lembrar nossos mortos que perderam a vida justamente empunhando a bandeira da liberdade, da igualdade e da democracia. É fundamental disputarmos essa perspectiva na juventude, a perspectiva de que a ditadura foi um mal que devemos entender profundamente como aconteceu, como se operou, para que nunca mais se repita na história do nosso país”.

A Deputada Federal Comunista, Jandira Feghali (PCdoB-RJ), estava em outro ato deste 1° de abril, na CBF, contra o presidente da entidade, José Maria Marin – que teve participação no regime ditatorial brasileiro; mas foi representada na Cinelândia por Caíque Tibiriçá, que lembrou do episódio em que Marin, então deputado, afirmou que a TV Cultura estava tomada por comunistas e ordenou a prisão do jornalista Vladimir Herzog, que poucos dias depois foi brutalmente assassinado pelas mãos dos militares. Caíque ainda salientou: “Ao lado da Verdade estamos perfilados, ao lado daqueles que querem a justiça, pois tortura não prescreve. Ditadura nunca mais, tortura nunca mais”.

O vice-presidente do PCdoB-RJ, João Batista Lemos, afirmou: “Eles pensaram que iriam parar a roda da história, eles, o imperalismo, as classes dominantes; mas a vida mostrou que é impossível parar essa roda, porque a classe trabalhadora, as forças progressistas sempre vão lutar por liberdade, pela justiça social desse país. Por isso estamos aqui, com a vitória de Lula e a continuidade de Dilma, na luta por um projeto nacional de desenvolvimento que vai abrir caminho para o Socialismo. Esse ato é importante para resgatar a memória, para que nunca mais aconteça no Brasil tortura, assassinato, daqueles que lutam pelo nosso país”, finalizou o líder comunista.

O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Daniel Iliescu, bradou: “Hoje é o dia da mentira que foi contada ao nosso povo há 49 anos atrás, não queremos só um ajuste de contas com o passado, queremos que a memória de tantos brasileiros possa ser resgatada. Vamos honrar na prática o sacrifício desses herois nacionais; precisamos manter o povo unido nessa luta, na luta pela Verdade”

Clube Militar em 1 abril 2013O presidente da União Estadual dos Estudantes do Rio de Janeiro (UEE-RJ), Igor Mayworm, declarou: “Estamos aqui para afirmar que não aceitaremos mais tortura, não aceitaremos mais ditadura, estamos aqui dando todo apoio à Comissão Nacional da Verdade. Estamos aqui para exigir que os torturadores, golpistas, sejam revelados à sociedade e punidos. Não vamos arredar os pés das ruas enquanto os capítulos turbulentos de nossa história sejam esclarecidos e que todos os torturadores sejam punidos”, finalizou o líder estudantil.

Esse importante e plural ato foi organizado pela AMES; Articulação Estadual por Memória, Verdade e Justiça; Coletivo de Ação Ericson Pires; Consulta Popular; CTB; JSB; Levante Popular da Juventude; Movimento Estudatil Popular Revolucionário; Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); Nação Hip Hop Brasil; PCdoB; PSB; PT; Sindicato dos Petroleiros, UEE, UJS, CUT-RJ; Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça; UNE, UEES.

Fonte:

Ato contra Golpe Militar de 1964 reúne centenas na Cinelândia

http://twitpic.com/cg98c7

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